Se vivo fosse, Getulio estaria muito preocupado. Após anos de ostracismo, os integralistas voltaram à cena política. Em geral, eles são tratados como a corrente tupiniquim do fascismo europeu. Mas não fale isso perto de um verdadeiro camisa-verde. Ele se apressa a desfazer a má fama do movimento. “Não pregamos a separação das raças como os nazistas alemães. Aceitamos em nossas fileiras católicos, muçulmanos e judeus. Não há preconceito algum”. Quem diz é Lucas Pavão de Carvalho, 27 anos, diretor administrativo da Frente Integralista Brasileira (FIB). Lucas faz parte da chamada quarta geração de integralistas, que, na esteira dos veteranos, vem tentando recuperar a força do movimento, que na década de 1930 mobilizou de 600 mil a um milhão de pessoas.
A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi fundada em 1932 sob a liderança do jornalista e escritor Plínio Salgado. Pregando uma doutrina de cunho autoritário e nacionalista, a organização cresceu durante o primeiro governo Vargas (1930-1937), que nutria simpatia pelos modelos europeus do fascismo. Mas a lua-de-mel durou pouco. Com o golpe do Estado Novo (1937-1945) e a proibição de qualquer organização partidária, a AIB foi ferozmente perseguida e teve seus principais quadros exilados. Sérgio de Vasconcellos, ex-secretário nacional de Doutrina e Estudos da FIB e há mais de 30 anos no movimento, diz que a repressão não parou por aí: “O governo militar também foi um desastre para todos nós. O Exército nunca foi simpático ao movimento, e muitos nos tratavam como comunistas só porque defendíamos algumas causas em comum, como a luta contra o latifúndio”.
Hoje o quadro é diferente. A polícia não os persegue e a Internet se tornou uma poderosa aliada na difusão de seus ideais. Sites, grupos de discussão e comunidades no Orkut exaltam o fortalecimento do Estado e atacam abertamente a democracia representativa e a globalização. O principal inimigo são suas próprias disputas internas. Márcia Carneiro, pesquisadora do Laboratório de História Oral da UFF e especialista no assunto, afirma que, embora conquiste muitos jovens desiludidos com a política, o movimento se ressente de uma unidade. A livre interpretação da teoria integralista acabou gerando várias tendências. “A FIB talvez seja a maior e mais conservadora. E apesar de não reconhecer outras organizações, tem que dividir espaço com a Ação Integralista Revolucionária (AIR) e com o Movimento Integralista Linearista Brasileiro (Milb)”, analisa.
A confusão de siglas surgiu após o grande Congresso Nacional Integralista para o Século XXI, realizado em 2004. A tentativa de manter o movimento unido fracassou, mas alguns camisas-verdes já pensam até em constituir um partido em um futuro próximo. Resta uma dúvida (e um temor): se não acreditam no voto, como esperam chegar ao poder?