Como uma caixa d’água com capacidade para um milhão de litros pode passar despercebida durante meio século? Boa pergunta para se fazer aos cuiabanos.
A capital do Mato Grosso desencavou uma preciosidade que havia sido esquecida sob seus pés: o reservatório e o aqueduto construídos no século XIX para abastecer a cidade. O conjunto, em estilo romano, impressiona. Erguido em 1882, durante a administração de José Maria de Alencastro, então governador da província, o reservatório tem duas galerias subterrâneas em forma de arco feitas com pedras canga e cristal, muito utilizadas na época. Por meio de um imponente aqueduto, ele serviu à população até a década de 1950. Depois, como que por encanto, sua existência foi simplesmente ignorada.
Até o ano passado, quem freqüentava o morro da Rua Comandante Costa, no coração da cidade, nem desconfiava que ali estava escondido um dos mais importantes patrimônios de Cuiabá. O local era usado para ensaios do bloco carnavalesco Beleza Pura. Que, ao contrário do que o nome sugere, ajudava a emporcalhar a área.
Em dezembro, a prefeitura resolveu verificar a situação da antiga caixa d’água subterrânea, sobre a qual havia poucas informações. O que encontraram foi uma dupla surpresa: a construção era muito maior do que imaginavam, e estava em péssimas condições. “Assim que conseguimos acesso à parte interna por um dos antigos dutos de água, nos deparamos com aquela arquitetura belíssima entregue às baratas, convivendo com lixo, bichos mortos, sujeira por todo lado”, lembra a arquiteta Adriana Bussiki Santos, presidente do Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (IPDU).
Adriana tratou, então, da recuperação do reservatório. Em poucos meses, todo o complexo foi reformado e sua estrutura original, preservada. No lugar das baratas, agora circulam por lá visitantes do recém-inaugurado Museu da Caixa d’Água Velha. Em exposição, equipamentos e vestígios que foram encontrados no subsolo, como velhos canos de ferro fundido, antigos registros usados no controle da distribuição de água e artigos do século XIX importados da Alemanha.
Do lado de fora, coube ao arquiteto Jaime Lerner (ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná) integrar a construção ao seu entorno. Além dos serviços do museu, um deque de madeira contorna uma imensa ximbuva de 75 anos de idade. A árvore tem valor cultural: é muito utilizada por ribeirinhos para a fabricação da viola-de-cocho.
Os planos do arquiteto paranaense para Cuiabá não se restringem à caixa d’água. Aplicando o curioso conceito de “acupuntura urbana”, Lerner pretende espetar na cidade outros pontos culturais estratégicos para fazer a vida fluir melhor. Na mira estão a revitalização da comunidade São Gonçalo-Beira-Rio, pólo de cerâmica regional, e o novo Centro Geodésico de Cuiabá — que deve atrair, além de turistas, boas energias e vibrações para a população. Faz sentido.