Apesar de não dispormos, por falta de registros históricos e de memória oral, de informações precisas sobre suas raízes africanas, sabemos que a capoeira no Brasil nunca pode ser definida no singular. Desde o século XIX havia modalidades distintas em cada grande cidade portuária do Brasil: Belém, São Luís, Recife, Salvador e Rio de Janeiro.
A capoeira contemporânea se desenvolveu a partir dos dois estilos que surgiram na década de 1930: a angola e a regional. Em Salvador, Mestre Bimba (1900-1974) introduziu uma série de inovações na capoeira que existia, visando preservar sua eficácia como arte marcial. Com isso, acabou inventando um novo estilo, que chamou de “luta regional baiana”, depois conhecido simplesmente como regional. Outros mestres baianos defendiam, ao contrário, a preservação de aspectos considerados fundamentais, como a teatralidade e a mandinga. Para ressaltar a importância das heranças ancestrais, esses mestres, entre eles Pastinha, passaram a chamar seu estilo de capoeira de angola. Inicialmente, a regional teve muito mais sucesso e se espalhou por todo o Brasil.
A partir da década de 1980, cresceu o interesse pelo estilo angola e também pela ancestralidade africana da capoeira. Mas, ao contrário do que aconteceu com o candomblé, por exemplo, os mestres de capoeira do tempo do cativeiro não transmitiram às gerações seguintes um conjunto de mitos, rezas e cantigas em línguas africanas. Os primeiros registros escritos tampouco dão detalhes sobre o ritual da roda e sobre o que nela se cantava. É muito provável que os capoeiras tenham adotado rapidamente o português para facilitar a comunicação entre eles. De fato, sobreviveram poucas referências da África e até do tempo da escravidão nas cantigas de capoeira tradicionais. Muitas das letras mais antigas que conhecemos celebram valentões da era republicana, como Pedro Mineiro e Besouro Mangangá. Isto nos leva a pensar que a capoeira adquiriu grande parte de suas características atuais no final do Império e durante a Primeira República.