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01/05/2008 Diminuir tamanho da letra
O Vidente Míope. J. Carlos n’O Malho (1922-1930)
Editora Folha Seca, 280 páginas, R$59,00.
Luiz Antonio Simas e Cássio Loredano

Nos anos 1920, num país ainda repleto de analfabetos como o Brasil, as revistas, fartamente ilustradas, tinham um papel fundamental na construção de uma identidade nacional espontânea, bem distante daquela proposta pelos cânones modernistas. Por não terem sido projetadas para a eternidade como os livros, trazem um retrato fresco e verdadeiro de uma época, o que as torna instrumentos preciosos para se conhecer o passado. Através de suas páginas, é possível saber o que acontecia na vida pública e privada de uma sociedade e, sobretudo, como os acontecimentos eram percebidos pelos agentes que ali estavam.

A maior prova disso é o presente livro, organizado por Cássio Loredano, caricaturista que vem há alguns anos resgatando o trabalho de José Carlos de Brito e Cunha – ou, simplesmente, J. Carlos. Ao longo desse processo, faltava-lhe uma década, os anos 1920. Na casa do filho de J. Carlos, Eduardo, encontram-se encadernadas e em perfeito estado todas as publicações das quais participou com mais afinco. Todas, menos O Malho, onde esteve durante toda a década.

O motivo do aparente deslize nos é apresentado de forma instigante. A disposição temática característica dos livros sobre J. Carlos organizados por Loredano parece aqui mais pertinente do que nunca, convidando o leitor a mergulhar no contexto passo a passo, até que o mistério seja finalmente desvendado.

O texto de Luiz Antonio Simas propõe um passeio agradável, pleno de informações curiosas e relevantes sobre cada tema. Longe do pedantismo por vezes presente nos textos históricos, Simas prepara seu leitor, passando em seguida a palavra – e o traço – ao próprio “Jota”.

Chama a atenção a atualidade de muitos dos temas tratados. No capítulo dedicado ao Rio de Janeiro, é difícil não ver a semelhança com o momento atual – epidemias ocasionadas por mosquitos, enchentes, ruas esburacadas e políticos corruptos ali aparecem como apareceriam hoje. No capítulo sobre o carnaval, Simas nos brinda com uma curiosidade pouco divulgada:
houve um momento em que se quis mudar a data da festividade para os meses do inverno, sob a alegação de que seria mais “higiênico”, já que eram meses menos propensos à disseminação de doenças contagiosas. Diante da proposta, a população não teve dúvidas – festejou em ambas as datas, o que fez as autoridades recuarem no ano seguinte. 

Continuando o percurso pelos anos 1920, assistimos à invenção do futebol como esporte de massa, vemos a preocupação de J. Carlos com a educação cívica e o amor à pátria, e o temor da revolução bolchevique na Rússia, vendo o comunismo como um monstro, literalmente.

Chegamos, finalmente, ao epílogo da aventura – O Testamento dos Vencidos. Aqui, as respostas à provocação contida no título vêm à tona em apenas treze páginas, nas quais o autor nos dá um panorama da ciranda política brasileira desde o final do século XIX até a revolução de 30. A precisão, a pertinência e a clareza do texto nos remetem diretamente ao traço de J. Carlos.  Como em seus desenhos, na prosa de Simas não há excessos; todas as linhas/palavras são imprescindíveis à compreensão do grande engano cometido pelo cronista visionário. J. Carlos não acreditou que a revolução de 30 triunfaria e fez gato e sapato de Getulio Vargas, apresentando-o como um sapo ou como o gaúcho roto com uma latinha amarrada às calças à guisa de rabo. Resultado: a redação de O Malho foi incendiada e nosso cronista não guardou para si nenhum exemplar daquela que se revelaria uma terrível experiência.

Como se não bastasse, o livro vem atrelado ao projeto Memória Gráfica Brasileira, patrocinado pelo programa Petrobras Cultural, que incluiu a digitalização em alta resolução da íntegra das revistas O Malho e Para Todos... no período em que estiveram sob a direção artística de J. Carlos – 1922-1931. Fica ao leitor curioso o desafio de verificar se as revistas têm ou não um extraordinário potencial de revelar o espírito de uma época.

JULIETA SOBRAL é professora de Design da PUC-Rio.

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