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| 01/07/2008 |
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| Bom entendedor tem que falar tupi |
| Registro do século XIX mostra como a “língua geral” sobreviveu e manteve-se arraigada entre nativos e mestiços. |
| Fabiano Vilaça |
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“Yasó yayuóg sekantár/ygapyra kyky (Vamos para cima tirar breu); Maé tenáua opé yasó? (Para que lugar iremos?); Kuparí reapyra opé (Para as cabeceiras do Rio Kupary)”. Você seria capaz de entender a mensagem contida nos primeiros versos desta “conversa” travada possivelmente por dois índios do Norte do Brasil (o Rio Cupari se localiza no Pará) sem a tradução para o português? Provavelmente, não. Mas grandes contingentes de homens e mulheres, índios ou mestiços, que habitavam a América no período colonial só dispunham da chamada “língua geral” para se comunicar. Muitos sequer aprenderam a falar o idioma do colonizador.
Os historiadores concordam que a língua geral surgiu a partir da necessidade de converter os nativos americanos ao cristianismo, ainda no século XVI. Os missionários jesuítas perceberam que sem uma comunicação perfeita com os índios o trabalho de catequese seria inviável. Por isso, tiveram que deixar de lado sua própria resistência a adotar a língua dos “bárbaros”, o tupi, e “traduziram” os ensinamentos da doutrina cristã para o idioma nativo. Acontece que o uso da língua geral ultrapassou o âmbito do trabalho missionário e se difundiu entre os colonos, às vezes como único “idioma”. Foi o caso dos moradores de São Paulo, que adotaram a língua geral em seu cotidiano até o século XVIII. Não foi à toa que os paulistas (aqui entendidos como bandeirantes) se destacaram na “preação” (captura) de índios. Na Região Amazônica, por sua vez, desenvolveu-se uma variante denominada nhengatu ou nheengatu.
Mas, como é possível constatar pelos trechos da “conversação” acima, transcritos no século XIX pelo geólogo e naturalista americano Charles Frederick Hartt (1840-1878), o uso da língua geral não ficou restrito ao período colonial. Hartt nasceu no Canadá, naturalizou-se americano e estudou Ciências Naturais (especialmente Geologia e Paleontologia) na Universidade de Harvard, onde conheceu o trabalho do geólogo e paleontólogo suíço Louis Agassiz. Em sua companhia, percorreu o Rio de Janeiro, Minas Gerais e parte do Nordeste e da Amazônia entre 1865 e 1866, como integrante da expedição Thayer. O interesse pelo Brasil levou Charles Hartt a retornar mais duas vezes: entre 1870 e 1871, quando explorou o arquipélago de Abrolhos, e entre 1875 e 1878, na condição de chefe da Imperial Comissão Geológica (ou Comissão Geológica Brasileira), da qual participou o fotógrafo Marc Ferrez, autor de importantes registros que hoje integram a coleção do Museu Nacional.
Hartt se dedicou ao estudo de vários povos indígenas com os quais teve contato no Brasil, como os maués e os botocudos. Estes o naturalista deve ter conhecido quando a Comissão Geológica passou por Minas Gerais. A experiência o inspirou a escrever um Vocabulário da língua botocuda. Da mesma forma, o contato com grupos indígenas do tronco lingüístico tupi (que não era o caso dos botocudos) deve ter resultado em notas sobre a “língua geral brasílica”, nas quais Hartt recuperou sua finalidade original: “foi adotada pelos jesuítas e usada em seu intercâmbio com os nativos”.
Não se sabe onde nem quando a Conversação em língua geral e português foi escrita, ou melhor, anotada por Charles Hartt. Seguindo-se os rastros de suas passagens pelo Brasil e as pistas deixadas no documento (como o Rio Cupari), presume-se que sejam registros feitos entre 1860 e 1870 de uma espécie de cantiga entoada por populações da Região Amazônica. O diálogo revela traços do seu cotidiano, como a viagem de canoa para buscar breu. Os personagens se lembram de carregar arma e pólvora para caçar, e um deles se preocupa em levar a mulher para fazer a pira kuí (farinha de peixe). E “como é que havemos de fazer pira kuí? (Maé yané kuité yamuñar pira kuí?)” – perguntou um dos homens. “Yamukaér pira (Moqueão [Moqueando] o peixe)” – respondeu o outro, ensinando que a farinha de peixe era cozida em um pequeno forno de barro “como se cozinha farinha de mandioca. Depois soca-se (sic) no pilão”.
Aos estudiosos da História do Brasil, as viagens de Charles Hartt confirmaram que a língua geral não era um instrumento exclusivo dos paulistas ou dos missionários. Mostraram também que a “língua brasílica” não ultrapassou só os limites do planalto e das missões, mas também o tempo. Permaneceu como traço cultural das populações nativas e mestiças. |
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