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01/09/2008 Diminuir tamanho da letra
Chaminés abandonadas
Pesquisadora indiana comenta sobre os processos de desindustrialização e o enfraquecimento da classe trabalhadora
Adriano Belisário

Antes lotadas, algumas fábricas indianas hoje nada mais produzem além de ecos. O enfraquecimento de pólos industriais e a desarticulação dos trabalhadores em cidades como Kanpur e Bombay foi o tema da palestra de Chitra Joshi no dia 26 de agosto. Autora do livro "Lost Worlds: Indian Labour and its Forgotten Histories", ainda sem tradução, ela foi convidada pela Fundação Getúlio Vargas a falar sobre a história do trabalho na Índia em uma perspectiva internacional.

Chitra comentou o crescimento dos empregos informais, em detrimento do ofício industrial. Segundo ela, ainda que seja importante, a fábrica deixou de ser o local de trabalho por excelência. Símbolo do encontro do trabalhador rural com a modernidade, as indústrias também funcionavam como locais de reunião entre pessoas de origens diferentes.

"Nos chawls [conglomerados habitacionais dos operários], as identidades de castas eram negociadas. Ainda que a fábrica controlasse os corpos dos empregados, eles resistiam, apropriando os espaços de um modo próprio e transformando-os com sua própria cultura, através dos cultos, por exemplo" disse Chitra Joshi, enquanto ilustrava sua apresentação com fotos de fábricas vazias.

A professora disse ser importante reavaliar as categorias espaciais tradicionais da história do trabalho. Sua obra dialoga com correntes tradicionais e modernas do pensamento historiográfico indiano, buscando compreender os impactos da industrialização na cultura dos trabalhadores e os fluxos migratórios ocasionados por ela.

Pesquisador da UFRRJ, Alexandre Fortes comentou que a Índia possui um passado de dominação colonial e desenvolveu tardiamente suas indústrias, assim como o Brasil. Aqui, no entanto, a implementação do modelo neoliberal foi retardada pela classe trabalhadora, enquanto lá os movimentos sociais não tiveram o mesmo sucesso em suas empreitadas.

Alexandre afirmou ainda que o esvaziamento de regiões fabris é presente mesmo em nações economicamente desenvolvidas, citando como exemplo a cidade de Detroit nos EUA. O que varia é a intensidade deste processo. "O ABC já não tem mais o mesmo peso que antigamente, mas não virou um deserto. A nossa desindustrialização veio com a democracia e sofreu fortes pressões dos movimentos sociais", comentou.

Ao contrário, na Índia as mudanças econômicas coincidiram com o enfraquecimento dos projetos baseados no nacional-desenvolvimentismo e com a ascensão de um partido fundamentalista que, segundo Alexandre, promoveu uma forte desarticulação da classe operária. Isso fez com que os estudos no campo da história do trabalho se voltassem para outros espaços, além das fábricas. Ele comentou ainda sobre a importância da preservação destes ambientes, transformando-os em espaços de reflexão, como museus ou centros culturais.

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