Bem-vindo visitante, clique aqui e faça seu login.
   Principal > Observatório > Ateu? Nem pensar!
23/03/2009 Diminuir tamanho da letra
Ateu? Nem pensar!
Relançada obra de Febvre que discute a religiosidade na Europa do século XVI. Lilia Schwarcz, Ronaldo Vainfas e Silvia Patuzzi participaram de debate sobre o livro.
Adriano Belisário

Na batalha contra o anacronismo, o historiador francês Lucien Febvre (1878 – 1956) alertou seus pares: este é o “pecado irremissível” da profissão. E foi para corrigir uma transgressão do tipo que publicou em 1942 o livro ‘O problema da incredulidade no século XVI – A religião de Rabelais’, relançado pela Companhia das Letras em evento na Biblioteca Nacional no dia 19 de março. Mediado pela socióloga Lilia Schwarcz, o evento contou ainda com a presença dos pesquisadores Ronaldo Vainfas (Universidade Federal Fluminense) e Silvia Patuzzi (Fundação Getúlio Vargas).

Na contramão de teorias contemporâneas, Febvre lançou no livro a hipótese de que, na Europa do século XVI, o ateísmo não era apenas uma realidade distante, mas algo literalmente inimaginável. Para tanto, toma a vida e obra do humanista François Rabelais (1483 – 1553) para demonstrar que a idéia de Deus estava impregnada na cultura européia de tal modo que não se poderia falar em descrença sem incorrer em um erro histórico, pois o conceito simplesmente inexistia do modo como o vemos hoje.

“O livro é, acima de tudo, uma lição de método. Febvre faz uma história da vida religiosa, não somente da teologia e dos documentos oficiais. Ao invés do Estado, ele busca a sociedade. Ao invés da filosofia, a cultura”, comentou Silvia Patuzzi.

De fato, ‘O problema da incredulidade no século XVI’ se inscreve em uma tradição historiográfica que marcou época. Ao lado de Marc Bloch, Febvre fundou a revista Revue des Annales. Nela, enfatizava-se os estudos culturais, em detrimento das abordagens com ênfase na política e diplomacia que predominavam na época. “A Annales fez aquilo que seria aprofundado depois na história das mentalidades, algo como uma psicologia histórica”, explicou Vainfas.

Já os estudos sobre a religião segundo Rabelais não foram novidades trazidas por Febvre. Décadas antes do lançamento de seu livro, o tema já era bastante discutido no meio acadêmico, mas com tendência a ver o humanista francês como um ateu precoce, em especial na leitura do historiador Abel Lefranc. Ao contrário, segundo Patuzzi, algumas posições de Rabelais apontam para uma espécie de “luteranismo intelectualizado”.

As discordâncias são compreensíveis. Se, por um lado, Rabelais esteve próximo da vida monástica, tendo pertencido até mesmo à ordem beneditina. Por outro, seus livros, como o clássico Pantagruel, eram repletos de sátiras aos costumes religiosos e foram censurados pela Igreja Católica. Porém, para Febvre, não há dúvidas sobre a religiosidade de Rabelais. “As bases de uma ausência de religião ainda eram frágeis no século XVI. Ela não era apensa presente, mas onipresente”, afirmou Vainfas no debate.

Silvia Patuzzi lembrou ainda que certos críticos rejeitaram posteriormente tal tese de Febvre e que o próprio afirmou diversas vezes o historiador é um homem de seu tempo, de maneira que existirão tantas sociedades quanto pesquisadores para retrata-las. Deixa-se, assim, entrever a possibilidade de, paradoxalmente, o historiador ser condenado ao seu maior pecado.

 Comente esta matéria (0 comentário(s))
 Versão para impressão |  Envie esta matéria para um amigo
 
Aumentar tamanho da letraDiminuir tamanho da letra
Principal | Quem Somos | Edições Anteriores | Tira-Dúvidas | Fale Conosco | Como comprar | Faça sua Assinatura
Com a palavra... | Observatório | Blog da Redação | Gente da História | Patrimônio em Perigo | Multimídia | Agenda | Links | Autores | Cadastre-se
Carta do Editor | Em Dia | Capa | Artigos | Entrevistas | Leituras | Perspectiva | Educação | Retrato | Dias na História
Decifre se for Capaz | Por Dentro da Biblioteca Nacional | Por Dentro do Documento | Livros
© 2007 - Revista de História da Biblioteca Nacional - Desenvolvido por FBS WebHouse
Ministério da Cultura Lei Rouanet Biblioteca Nacional Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional Petrobras