"Antes de optar pelo pornô, o cinema exibiu filmes de kung-fu, bang-bang e pornochanchadas. Até que em 1979, em plena ditadura, chegaram as primeiras produções assumidamente eróticas. Três anos depois, as dançarinas se instalavam na casa para evoluir no palco. A censura chiou, alguns passantes torceram o nariz, mas, a cada veto, Neto conseguia uma liminar na Justiça para manter intacta a programação", relatou o repórter Bernardo Camara.
Outro antigo reduto dos cinemas de rua no Rio de Janeiro era a Tijuca, que viu o número de poltronas no bairro cair de dez mil em seus tempos áureos para menos de dois mil atualmente. Os números são da pesquisadora Talitha Ferraz, que publicou recentemente o livro "A segunda Cinelândia carioca - cinemas, sociabilidade e memória na Tijuca", pela Editora Multifoco.
"Escrevi 'A segunda Cinelândia carioca' como uma crítica à desvitalização do espaço cultural urbano. Eu cresci acompanhando o desaparecimento das casas de exibição do bairro. As salas de cinema antes eram componentes das calçadas. Agora, elas são um brinde a quem vai consumir em um shopping", disse a autora em entrevista ao Jornal O Globo.
Desaparecidos os cinemas, os prédios que outrora abrigavam as projeções transformaram-se em farmácias, lojas de roupa e igrejas. No curta-metragem 'Vale de Sidim', o cineasta Guilherme Tomaz mistura documentário e ficção para fazer uma denúncia bem humorada das transformações no circuito de filmes da Tijuca. No vídeo, um ator passeia por locais que já abrigaram salas de exibição, questionando quem encontra pela frente pela existência das mesmas. Sem sucesso, cruza correndo a cidade e ruma para o Odeon, que sobrevive na calçada da praça Cinelândia.