Dois focos rurais de resistência armada marcaram o enfrentamento das esquerdas ao golpe civil-militar de 1964: a Guerrilha do Caparaó, de fins de 1966 a abril de 1967, e a Guerrilha do Araguaia (1970-74). Caparaó contou com cerca de vinte ex-militares, apoiados por Leonel Brizola – exilado no Uruguai – e influenciados pela Revolução Cubana, que tentaram estabelecer assim uma Sierra Maestra na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais.
Sufocados pelo governo militar, os guerrilheiros enfrentaram as dificuldades do ambiente inóspito e a não-cooptação dos camponeses para a luta. As cisões internas possibilitaram o sucesso da ação que capturou os militantes.
Temática que vem sendo revisitada pela historiografia, a Guerrilha recebeu tanto a narrativa jornalística do presente livro como um documentário recente (“Caparaó”, de Flávio Frederico). Mapeando e recuperando as narrativas de alguns dos principais envolvidos na ação e em sua repressão, como também na pesquisa em arquivos de jornal, Caparaó busca, no depoimento atual desses ex-militares, compreender as motivações desse foco rural de resistência. Situando a questão no contexto do país e do mundo, a participação do governo de Fidel Castro – que treinou parte dos guerrilheiros –, o livro de José Caldas da Costa redesenha o cotidiano dos meses no Parque, a derrota, a captura e a prisão. Caparaó, o livro, como excelente reportagem, ao localizar os personagens da ação – homens entre 60 e 75 anos –, permite a estes um balanço 40 anos depois. Aos leitores, fica a possibilidade de apreender o episódio dentro da trajetória política recente da História brasileira.
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(Beatriz Kushnir é doutora em História pela Unicamp e diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro)