Poucos têm uma história de vida como a do historiador Nicolau Sevcenko. Filho de imigrantes russos, da região da Ucrânia, fugidos da perseguição bolchevique, Sevcenko nasceu no Brasil, mais especificamente em São Paulo, em 1952. Dividiu a infância entre o trabalho, o esporte e, é claro, o estudo. “Cada uma dessas atividades me deu uma percepção do mundo bastante diferente, bastante significativa.” Depois de escorregar para o lado da bioquímica, decidiu-se pela história. Graduou-se em 1976, na Universidade de São Paulo, onde é professor titular desde 1999. Hoje, circula entre São Paulo e Londres, onde é membro do Centre for Latin American Cultural Studies, da Universidade de Londres. É também editor-associado de The Journal of Latin-American Cultural Studies, importante publicação da Universidade de Cambridge, Estados Unidos. Autor de obras pioneiras que contribuíram para consolidar o estudo da história da cultura brasileira – como Literatura como missão –, sua obra reflete um intelectual interessado por diversas áreas do conhecimento e um historiador interessado em se comunicar com o grande público, por isso escreve freqüentemente na imprensa, nacional e estrangeira.
Nicolau Sevcenko encontrou a equipe da Revista de História para uma entrevista na capital paulista: falou com emoção da família, de seu percurso intelectual e de suas pesquisas, também de história e de historiadores. Por fim, como pensador de seu tempo, analisou os rumos do Brasil e os aspectos do novo cenário mundial. “É preciso tirar a tecnologia do plano estrito da economia e colocá-la também, de forma mais ampla, como um dos fundamentos de transformação no campo social”, observa Sevcenko, fazendo história no presente.
Revista de História – O que o levou ao estudo da história?
Nicolau Sevcenko – É sempre difícil dizer que caminho nos leva a determinada opção, que em grande parte tem elementos subconscientes. Na juventude eu tinha mais inclinação para uma carreira na área das ciências aplicadas, pensava em medicina. Depois fui percebendo que não tinha muita habilidade para tratar com as condições patológicas do corpo humano, percebi que na biologia o que mais interessava era a parte estrutural e, portanto, bioquímica. Curiosamente, foi a partir desse ponto, quando eu já estava decido a fazer uma opção na área da bioquímica, que na última hora acabei decidindo por uma carreira na área das ciências humanas, e dentro das ciências humanas a que mais me atraía era a história.