RH – Houve alguma influência familiar?
NS – De certa forma, sim, é o outro lado da questão. Minha família tinha uma situação obscura. Eram refugiados políticos. Meu avô era refugiado militar. Fora oficial do exército russo e lutara pelos tsaristas contra os bolcheviques. Obviamente, todos os problemas da minha família decorreram dessa atuação dele, pois ela foi vítima de uma perseguição implacável que acabou tirando a vida da maior parte dos meus parentes.
RH – Inclusive seu avô?
NS – Não, milagrosamente meu avô e seus filhos conseguiram escapar, e eu descendo dessa linhagem restante, desse resíduo de uma grande família. O assunto sempre foi para todos nós tão traumatizante que era praticamente tabu falar sobre o passado na minha família, porque quando isso acontecia as pessoas se alteravam, tremiam, lacrimejavam, ficavam profundamente deprimidas. Então no fundo eu tinha uma imensa curiosidade sobre uma dimensão secreta da minha família, da minha origem, da minha ascendência, que me foi tolhida por esse processo profundamente impactante na história do século XX – especialmente as revoluções, as guerras civis –, do qual eu sou uma espécie de subproduto.
RH – Sabe-se que sua infância foi dura, marcada por uma batalha pessoal muito prematura. Como foi esse período?
NS – Tive de enfrentar a circunstância bastante difícil de ter perdido meu pai muito cedo, aos cinco anos. Pouco tempo depois, antes de completar sete anos, minha mãe perdeu o emprego. Por causa disso, antes de entrar na escola comecei a trabalhar com meu irmão. Puxávamos uma carroça de metal pela periferia de São Paulo, recolhendo e vendendo sucata.