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01/03/2006 Diminuir tamanho da letra
Nicolau Sevcenko
A história como missão
Revista de História

RH – A necessidade de trabalhar não prejudicava os estudos?
NS – Não. Por qualquer que seja a razão, tive uma atuação bem sucedida no meu desempenho escolar, e por isso recebi uma significativa atenção de professores. Eles me motivaram a ter uma carreira voltada para a pesquisa, por que sempre tive paixão. Acho que é relevante considerar nesse percurso também a situação excepcional de eu, por um lado, trabalhar o tempo inteiro para ajudar a minha família e, por outro, fazer cursos, me dedicar às atividades escolares. Além disso tinha também uma atividade esportiva – vôlei, basquete e especialmente handebol. Participei da consolidação do handebol como esporte, aqui em São Paulo, o que me levou à seleção brasileira.

RH – Uma vez o Sr. disse que tinha dificuldades em falar português. Como superou isso?
NS – Eu na verdade sou disléxico e dislálico, e ainda tenho uma série de outras disfuncionalidades psicológicas. A razão disso tudo é que eu nasci canhoto.  De onde a minha família vem, era pecado ante a igreja, e uma transgressão ante o Estado, ser canhoto. Por isso minha mãe se viu obrigada, contra a vontade dela, a amarrar minha mão esquerda nas minhas costas para me forçar a usar a direita. Isso, só vim a descobrir muito tarde, quando já era adulto, provoca uma descompensação entre os hemisférios cerebrais. Causa uma espécie de curto-circuito, que é irreversível e produz essas disfuncionalidades todas. É por isso que falo assim, meio gaguejante, e não tenho muito fluência. Às vezes esqueço palavras fundamentais e simples, como “mesa” e “janela”.

RH – E no entanto escreve muito bem...
NS – Mas a linguagem sempre foi um problema pra mim.  E claro, mais complicado ainda pelo fato de que a minha língua original, minha língua materna, é o russo. Quando fui para a escola a experiência foi traumatizante. Eu não entendia nada. Sentei onde eu entendi que me mandavam sentar, e fiquei ali, constrangido, por um longo tempo, esperando que a aula acabasse e eu pudesse ir correndo para casa, pra dizer à minha mãe que haviam cometido um grande equivoco, haviam me colocado numa escola estrangeira. Pela primeira vez minha mãe me disse isso: “Não, estrangeiros somos nós”. Porque, como meus pais eram refugiados políticos, eles não vieram para o Brasil como imigrantes, com pretensão de se assimilar aqui. Eles sempre ficaram na expectativa de que a situação na Rússia mudasse e que eles pudessem voltar para lá.

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