RH – Passemos ao seu livro mais conhecido, Literatura como missão. Como surgiu a idéia de escrevê-lo?
NS – É fruto de uma pesquisa de mestrado que acabou promovida a tese de doutoramento. Tive grandes dificuldades na pós-graduação. Naquele período, final dos anos 70, o peso da ditadura militar se fazia presente nas universidades e na vida cultural do país em geral. É fácil compreender, naquele contexto, a predominância de pesquisas sobre história política e história econômica nas universidades. Eram essas áreas que prevaleciam num contexto muito politizado, muito partidarizado, dentro da universidade. Então, quando eu apareci com esse projeto que tinha uma natureza de história cultural centrado numa documentação que era essencialmente literária, o conjunto do projeto foi visto como uma espécie de impropriedade em relação ao contexto em que se vivia.
RH – As principais críticas quais eram?
NS – O problema é que meus colegas consideravam literatura ficção e, sendo ficção, obviamente não poderia servir como fundamento de um trabalho que tenha compromisso com o referencial da realidade. Desse ponto de vista, a literatura não parece ser um material particularmente adequado para um trabalho de historiador. Minha grande surpresa foi a opinião da minha banca de doutorado, uma banca extraordinária, com professores do mais alto gabarito, como Sérgio Buarque de Holanda, Rui Coelho, Boris Schneiderman e Maria Tereza Petroni. Todos foram unânimes em enaltecer a qualidade da pesquisa e dizer, pela primeira vez, que ela era sim pertinente, tinha a ver com aquele momento cultural e devia receber a atenção da comunidade acadêmica. Para mim foi um momento de lavagem de alma, depois de cinco anos de tormento!
RH – Depois do estranhamento inicial, como o Sr. explica o sucesso de Literatura como missão? NS – Acho que a razão pela qual o livro teve uma repercussão tão grande e tão imediata foi a necessidade, naquele momento da abertura, de o país ter um projeto de futuro, que de alguma forma trouxesse consigo, como idéia dominante, a idéia do resgate da dívida social brasileira. Era essa a questão que a ditadura tinha tirado de circulação. Ela colocou a questão do desenvolvimento a qualquer custo, a integração do país ao mercado internacional independente das condições especificas características da sociedade brasileira – a última grande sociedade escravocrata do mundo ocidental. Um erro. A dimensão da divida social brasileira é tão exponencial que ela tem de ser pleiteada em qualquer projeto político.