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01/03/2006 Diminuir tamanho da letra
Nicolau Sevcenko
A história como missão
Revista de História

RH – O que as suas pesquisas revelaram especificamente em relação a esse tema?
NS – A importância da geração de 1870. Esses escritores lançaram a questão da mudança do Brasil monárquico, numa perspectiva republicana que implicasse, em primeiro lugar, a abolição da escravatura. Eles foram os primeiros a perceber que nenhuma saída política ou econômica seria viável se não previsse em primeiro lugar a incorporação dessa enorme massa de excluídos que compõem a sociedade brasileira. Você vê essa idéia desde Joaquim Nabuco, passando por Machado de Assis e Capistrano de Abreu. É esse legado que constitui a base da qual parte a primeira geração de republicanos, representada, no âmbito da minha pesquisa, por Euclides da Cunha e Lima Barreto.

RH – Quer dizer, o projeto da geração de 1870 ainda está por ser realizado...

NS – É, no passado, Euclides e Lima Barreto talvez foram os que melhor articularam essa grande decepção. Mantiveram a convicção da geração de 1870 de que, uma vez mudado o regime, se instalaria aqui uma república de natureza democrática, com uma orientação equalizadora, redistributiva e de promoção social fundamentando o seu projeto político. Mas isso não aconteceu. O que estava voltando à tona, na época da abertura, ainda na ditadura militar, era exatamente a retomada desse debate de base social e humanística: cobrar uma promessa não cumprida por sucessivas administrações. Cada uma trouxe um lote de esperanças, cada qual prometeu uma ênfase no social, mas todas abortaram o mesmo legado. Todas, de algum modo, se desviaram daquela linhagem democratizante e humanista.

RH – Depois de Lima Barreto e Euclides, quais foram os principais representantes dessa linhagem?
NS – Caio Prado Junior, por exemplo. Sérgio Buarque de Holanda. Raimundo Faoro. Acho que essa é ainda a grande promessa de um Brasil capaz de responder ao desafio do resgate dessa dívida social. Enquanto isso não for feito, o país continuará patinando à deriva no contexto internacional com o qual quer se encontrar, pois renega aquele que é o seu compromisso fundamental.

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