RH – O Sr. teve o privilégio de conviver com dois historiadores excepcionais: Sérgio Buarque de Holanda, na USP, e Eric Hobsbawm, com quem o Sr. dividiu uma sala na Universidade de Londres. O que guardou dessa experiência?
NS – Eu diria que os dois são muito diferentes entre si, mas é uma diferença que não exclui. São duas formas diferentes de riqueza, que fazem o seu tesouro se enriquecer ainda mais. Eric Hobsbawm, evidentemente por causa da sua formação marxista predominante, tem essa visão universalista. Ele entende o mundo contemporâneo como uma espécie de grande dinâmica articulada pelo ciclo do capitalismo – partes que respondem de maneiras diferentes a essa espécie de interativo comum. A sensibilidade mais distinta do modo de trabalhar do Hobsbawm é exatamente essa: a de marcar, por um lado, essa espécie de energia integradora e submissora; por outro, expor os elementos de resistência, autonomia e confronto que de toda parte se manifestam, tentando resistir a esse processo integrador.
RH – E Sérgio Buarque?
NS – É muito mais voltado para o historicismo alemão, com o qual teve contato direto quando esteve na Alemanha. Ele explorou com sensibilidade a singularidade única dos contextos históricos, e nesse sentido é que ele diverge significativamente do professor Hobsbawm. Ao invés de ver o mundo a partir de uma dinâmica dominante, submissora, Sérgio Buarque o enfoca a partir dos elementos contingentes que constroem dinâmicas próprias. Ele vê mais do pequeno para o grande, de baixo para cima, de uma perspectiva de microcontextos de situações contingentes e de deliberações tomadas em condições de resolução, criadas pelas características singulares que cada pessoa, cada grupo, cada sociedade experimentam como sua dimensão concreta de experiência.
RH – E é possível, como historiador, conciliar Sérgio Buarque de Holanda e Eric Hobsbawm?
NS – Se você conseguir de algum modo trabalhar costurando entre uma e outra posição, acaba produzindo um efeito de ampliação do horizonte de pesquisa, do micro pro macro, do macro pro micro, o tempo inteiro sem perder esse vigor da palpitação da vida, da riqueza do concreto e da grande dinâmica do conjunto como um sistema articulado.