Eis o cenário do São João Batista, freqüentado diariamente por uma pequena multidão – desde pessoas do bairro que o utilizam para cortar caminho, funcionários da administração, trabalhadores da limpeza e coveiros, até os empreiteiros que cuidam das sepulturas. Mas o cemitério também conta com suas próprias histórias e personalidades. Uma delas foi dona Ottilia Manfredi, falecida em 2000, e que desde 1946 visitava o túmulo do filho aviador, morto num acidente aéreo, e que, nas ocasiões do seu aniversário, brindava os coveiros com uma bebida chamada leite-de-onça, mistura de cachaça, leite condensado e chocolate. Outro ilustre é o sr. Jaime Sabino, vulgo Jaiminho, antigo figurante de chanchadas, e que desde a morte de Getúlio Vargas freqüenta as capelas onde se velam as celebridades. Sua figura diminuta e compungida é facilmente identificada nas fotografias do sepultamento de famosos. E, como não poderia faltar, o sobrenatural também tem seu representante: o mítico bode centenário que assusta as pessoas com suas aparições no morro de São João. Ninguém viu, mas ele também é parte da história do local.
Paulo Valadares é mestre em história social pela Universidade de São Paulo (USP), e co-autor, com Guilherme Faiguenboim e Anna Rosa Campagnano, do Dicionário Sefaradi de sobrenomes (Dictionary of Sephardic surnames) .